February 10, 2011

Relato de um concurso para professor - Parte 1

Olá pessoal,

Tem muito, muito, muito tempo que eu não escrevo nada aqui no Notas em CFD. Bem, isso tem um motivo. Como o Mitre comentou aqui, eu assumi o cargo de professor na Escola de Química da UFRJ em agosto de 2009. Estive bastante ocupado desde então, seja com o preparo de aulas para diferentes disciplinas (Segurança de Processos, Transferência de Calor, Fenômenos de Transporte, Mecânica dos Fluidos II, Métodos Numéricos Aplicados e Laboratório de Engenharia Química), processos administrativos ou orientação de alunos de graduação e pós. Desta forma, o Notas acabou ficando um pouco de lado nesse período conturbado, mas o Mitre e os novos autores do Notas mandaram bem nesse meu período de ausência e postou vários assuntos.

De qualquer forma, acredito que existem alguns leitores que estão fazendo pós-graduação e almejam um cargo de docente em alguma universidade. Portanto, achei interessante comentar aqui no blog como ocorreu o meu concurso, as dificuldades, o acaso da sorte, a banca, etc.

Fiz o concurso para professor adjunto na área de Fenômenos de Transporte e Operações Unitárias (2 vagas), sendo que o candidato seria avaliado com uma prova escrita, uma defesa de memorial, uma prova didática e a avaliação de currículo. Para as provas, a ementa era quase que engenharia química toda. De fato, a ementa do concurso estava assustadora e, de cara, afastou vários candidatos ao cargo. Veja abaixo a íntegra da dita:
  1. Escoamento incompressível. Análises Lagrangeana e Euleriana. Fluidos ideais. Equações de Euler e Bernoulli. Fluidos reais. Equação de Navier-Stokes. Balanço macroscópico de energia. Escoamento em tubulações e acidentes. Perda de carga. Bombeamento de fluidos. Curva característica e cavitação.

  2. Teoria da camada limite. Escoamento sobre placas planas. Equação de Prandtl. Soluções de Blasius e Von Karman.

  3. Turbulência. Média temporal das equações da continuidade e do movimento para fluidos incompressíveis. Tensões de Reynolds. Perfis de velocidades próximo a paredes. Modelos para o fluxo turbulento de momento linear.

  4. Fluidodinâmica em sistemas particulados. Força de arraste e coeficiente de arraste. Velocidade terminal. Lei de Stokes. Grupos adimensionais. Efeitos de parede, população e da forma da partícula. Correlações e problemas típicos.

  5. Separação sólido-sólido, sólido-gás e sólido-líquido em sistemas particulados diluídos. Elutriação, câmaras de poeira, ciclones, centrífugas e hidrociclones.

  6. Escoamento monofásico em meios porosos. Conservação de massa e momento linear via teoria de misturas. Força resistiva. Modelos de Darcy e Forchheimer. Ensaios de permeametria. Perda de carga em meios porosos.

  7. Separação sólido-líquido em sistemas particulados concentrados. Filtração em superfície. Filtros prensa e de tambor rotativo. Auxiliares de filtração. Sedimentação. Teste de proveta. Cálculo da área da seção transversal e da altura.

  8. Fluidização. Gases versus líquidos. Queda de pressão versus velocidade superficial. Histerese. Velocidade, porosidade e altura mínimas de fluidização. Conservação de momento linear das fases via teoria de misturas. Correlações para a fluidização homogênea.

  9. Condução térmica uni e multidimensionais em regime estacionário e em regime transiente. Balanços de energia em coordenadas cartesiana, cilíndrica e esférica. Aletas.

  10. Convecção em Escoamentos Internos e Externos. Camada limite térmica. Problema de Graetz. Convecção natural e convecção forçada. Ebulição e Condensação.

  11. Trocadores de calor. Métodos de Projeto. Aplicações.

  12. Radiação. Propriedades radiantes. Corpos negro e cinza. Lei de Kirchhoff. Fator de forma. Troca de calor radiante entre superfícies negras e não negras.

  13. Fundamentos da Transferência de Massa. Mecanismos. Relações de Fluxo- Lei de Fick e relação de Maxwell-Stefan. Regime Estacionário. Regime Transiente. Coeficiente de Difusão.

  14. Transferência de Massa em Sistemas binários e multicompostos. Modelos teóricos para a transferência de massa na interface fluido-fluido. Coeficientes de transferência de massa.

  15. Transferência de movimento e massa simultâneo.

  16. Transferência simultânea de calor e de massa.

  17. Processos de Cristalização e Secagem.

  18. Processos de Separação e Operações de Separação em Estágios. Conceito de Estágio de Equilíbrio. Separação em 1(um) estágio de equilíbrio.

  19. Destilação Binária e Multicomposta. Projeto e Condições de Operação.

  20. Colunas de Recheio para Absorção, Esgotamento e Destilação.

Concordam comigo? Isso é quase o currículo de engenharia química toda! Contudo, a área do concurso (Fenômenos de Transporte e Operações Unitárias) é isso tudo mesmo. Mas fico me perguntando se essa ementa gigantesca é válida para um concurso de docente. Usualmente, apenas três ou quatro tópicos são sorteados para serem usados efetivamente no concurso. Portanto, achei a ementa bastante exagerada. Conheço pessoas que não fizeram o concurso justamente pelo tamanho da ementa.

Mas... As regras estavam postas na mesa e tive que aceitá-las. Eu e mais 5 pessoas nos inscrevemos no concurso em dezembro de 2008. Comecei a estudar para valer no início de fevereiro, sendo que o concurso estava marcado para início de abril. Estudei muito, tópico por tópico, preparando resumos como se fossem aulas (ou esboço de aulas). Sempre deduzindo as equações, etapa por etapa e avaliando todas as hipóteses e simplificações. Note que é isso que se espera ser cobrado em um concurso para professor.

Faltando uma semana para a data do concurso, eu ainda não tinha começado a estudar os tópicos de destilação binária, multicomposta e colunas de recheio. Tive que correr no estudo destes assuntos e consegui acabar tudo uns dois dias antes do concurso. Mas confesso que não estava muito seguro nestes últimos pontos. Paciência!! A vida não é justa e perfeito, só Deus mesmo.

O concurso
A banca de avaliação foi toda composta de professores titulares, sendo 2 da própria Escola de Química e 3 de diferentes universidades do Brasil. Mas todos pesos-pesados na área e a presença deles impunha respeito aos candidatos.

Para falar a verdade, o número de candidatos se reduziu no dia do concurso. Dos 6 candidatos que se inscreveram, apenas 3 compareceram (sendo eu um deles). Mesmo assim, conforme já comentei, a ementa era gigantesca e isso continuou sendo o maior dos meus problemas. Afinal de contas, uma prova escrita mal realizada significa o fim do concurso.

A banca dividiu o concurso da seguinte maneira:
  • Primeiro dia: Sorteio de 4 tópicos da ementa, sendo 3 para prova escrita e 1 para a prova didática. Realização da prova escrita. Por fim, a leitura da prova em público.
  • Segundo dia: Divulgação da nota da prova escrita. Defesa do memorial e divulgação do assunto da prova didática (24 horas antes da realização da mesma). Nesse meio tempo, a banca faria a avaliação dos currículos.
  • Terceiro dia: Realização da prova didática (uma aula de ~50 minutos) e, no fim do dia, divulgação do resultado.
Primeiro Dia
No início do concurso, a banca pegou uma folha em branco e começaram a escrever números de 1 a 20 (o número de tópico do concurso). Cortaram a folha com os vários números e colocaram tudo dentro de um saco para realizar o sorteio das questões das provas. Achei isso legal pois foi bem transparente uma vez que a banca fez tudo na frente dos candidatos.

A banca pediu que cada um dos candidatos sorteasse um papelzinho. Eu estava tenso pois sabia que, apesar de ter estudado, não dominava todos os assuntos da ementa. Aí eu ficava repetindo "Destilação, não! Destilação, não! Destilação, não" a cada papelzinho sorteado. Acho que essa foi a sorte do ano para mim. Não saiu nenhum tópico de destilação mas os itens 1 (Bernoulli e Navier-Stokes), 4 (Lei de Stokes) e 8 (Fluidização) da ementa. No final, um professor sorteou mais um papelzinho com o tema para a aula didática e logo lacrou-o em um envelope sem ver o número. Só saberíamos do tema depois da defesa do memorial.

Tivemos uma hora para preparar um resumo (uma folha de almaço) que poderia ser consultado durante a prova. Logo depois, 4 horas de prova! E, em seguida, a leitura da prova em público.

Neste ponto eu deixo uma observação. Para exemplificar o procedimento de um balanço de massa sobre um volume de controle genérico, eu fiz um desenho sem muitos detalhes escritos. A leitura da prova se aplica apenas à reprodução exata das palavras que foram escritas e não a desenhos. Como eu me baseei no desenho para partir a dedução do balanço, como eu poderia ler para a banca e ao público um desenho que só tem indicações de vetores, volume e área? Para quem conhece o assunto até dá para entender o propósito da figura, mas isso deve ficar registrado na prova de forma clara. O ideal seria ter feito uma legenda explicando exatamente a intenção do escopo daquela figura na dedução e dando "nome aos bois", como os vetores velocidade e normal, volume e área do volume de controle.

Em contrapartida, eu também fiz um desenho na questão de fluidização sobre as regiões do gráfico de queda de pressão em função da velocidade de fluidização. Neste caso, eu dividi a figura em regiões (I, II, III, etc.) e expliquei cada uma em separado no corpo da questão. Desta forma, não tive problema nenhum com a leitura da questão pois o próprio texto referenciava a figura. Ficou mais fácil assim. Este pode parecer um pequeno detalhe, mas que faz a diferença quando estamos sendo avaliados.

Vocês já devem ter percebido que eu fui aprovado na prova escrita e, portanto, continuei com as outras etapas do concurso. Eu quero continuar a história, mas este post já está longo demais. Portanto, vou dividi-lo em duas partes e na segunda parte eu escrevo sobre a defesa do memorial e sobre a prova didática.

Um abraço!

3 comments:

  1. Muito bom Luiz, esse texto vai servir de dica para muito gente (inclusive eu)....

    ReplyDelete
  2. e quem sabe bem futuramente pra mim também.
    Grande Abraço

    ReplyDelete
  3. Me interessei bastante no seu post. Existe a 2ª parte?

    ReplyDelete